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março 30, 2012

trintademarçodedoismiledozeI










E distraída ouvindo uma música qualquer
passei pelo trabalhador que sob o sol quente do outono
colocava asfalto novo na rua.
Ele estava suado e me olhou sorrindo.
No bolso dele, um pente e um garfo.
Em suas mãos, uma pá e toda a sua dignidade.

ICS

abril 18, 2011

O adeus do Jacaré

 "E foi uma descoberta de um paraíso dentro do inferno. Porque o Brasil é um inferno e o Capingüi um paraíso"

João Carlos Tiburski, assim constava o nome do professor no comprovante de matrícula.
Tiba, assim era chamado por todos dentro da Universidade e da Faculdade de Artes e Comunicação.
Jacaré.Assim era chamado apenas por quem realmente gostava dele.
O nosso jacaré. Aquele que demorava pra entrar na sala de aula e saía tão rápido qeu a gente não via. Era um mestre, sabia muito o Jacaré. Ensinava muito mais nos corredores do que na sala de aula. Quanta coisa aprendi parada em frente a "A Vara" pertinho dos banheiros, quantas histórias eu ouvi enquanto tragava mais um cigarro no banco da FAC. Ele que vinha pigarreando e tossindo, sempre! e que me apresentou um tal pózinho que mais parecia café, que ele ficava cheirando e cheirando e dizia "isso aqui é pra não ter vontade de fumar ,jacaré" .
Ele que muito lia meus textos e sizia "Manda esse pro Crônicas, tenho certeza que vai" e eu mandei. Porque o Tiba disse. O jacaré falou. E quando o texto realmente foi selecionado, veio ele se oferecer para mostrar quantos votos de sim tinha recebido, e todo contente : "a tua vai ser ilustrada jacaré." 
Tivemos brigas também. Discussões políticas eram as mais fervorosas,realemente.Mas não tinha nem comparação com a fúria dos alunos que tinham aula no sábado de manhã. Era uma tal história de chegar as 8 e ir embora menos de duas horas depois. Cerca de 9:30 ou 9:40 da manhã, o Tiba começava a ficar ansiado e perguntar se já tínhamos entendido a matéria, se já havíamos terminado as atividades,afinal "Fim de semana é dia de ir pro Capingui,ir no sábado e voltar no domingo". E com aquele jeitão dele, ele conquistava os alunos. Conquistou a gente. Ganhou a gordinha. Mas nesse domingo, ele não voltou. Nadou pela última vez, ficou aonde mais gostava. Na água, aonde jacaré tem que ficar.
Ele, que era amante da boemia, da cultura, da leitura, das artes. O nosso Bukowski faquiano.Como disse meu colega Artur "Vai o mestre, ficam seus discípulos." Foi mais do que matéria o que ele nos ensinou, foi um estilo de vida. Ele nos ensinou a ser  mais que jornalista, nos ensinou a ser o jornalismo.
Vai com Deus Tiba, sei que você já deve estar tomando um vinho aí em cima, apenas esperando e esperando. Não é a toa que o tempo está assim, fechado, chovendo.O capingui está em luto.A FAC está em luto. O jornalismo brasileiro está em luto.
E nunca mais ninguém me diga que jacaré não entra no céu.

novembro 17, 2010

Estranho mundo Particular


O meu mundinho cresceu. Fico em dúvida se fui eu ou se as coisas realmente mudaram, mas na verdade acho que é um casamento das duas mudanças: a minha e a do meu mundo. Nunca fui considerada muito normal, eu admito. Ainda lembro o meu primeiro dia de aula, todas as crianças choravam , esperneavam ou corriam pelos brinquedos da pracinha; já eu peguei um livro, comecei a olhar as figuras e fiz xixi ali, no meio da biblioteca, e quando perguntaram por que não tinha ido ao banheiro, calmamente eu respondi: ”Eu não tinha terminado de ler.”
Prazer, eu sou a Ingra. Desse jeito mesmo, INGRA! E é nome, não apelido, como muitos perguntam; e a minha mãe fui influenciada pela novela sim, como a maioria das mães da década de noventa. Meu nome fora inspirado na Ana Raio. Curso Jornalismo. Minha mãe não vê a hora que eu case, meu pai quer um neto e meu irmão acha que eu devia virar hippie ou puta, para ele tanto faz. Estudo na FAC, e não me vejo em nenhum outro prédio. Pra ser bem sincera, acho até que tenho um amor recolhido pelas paredes desse prédio, e sou absurdamente encantada com as pessoas que ali habitam. Nunca, na história desse país (um salve pro Lula) eu conheci pessoas como nesse universo paralelo da Comunicação. Posso dizer que eu me encontrei. Que vivo em um mundo aonde as pessoas não se importam se tem o corte de cabelo da moda, escutam Beatles e suas festas se fazem tendo apenas um violão. Ali, as pessoas não se importam com a opinião alheia, elas só querem ser felizes. Seja parecendo uma calopsita ou tendo uma bunda que ninguém acredita que é de verdade. O que importa, meu amigo, é não se importar com os outros. Complicado isso, não é? Nem tanto. Descobri que as coisas são muito simples, quem as complica somos nós. A felicidade pode estar em um papo jogado fora em uma escadaria mágica que atrai todo mundo que passa, num café “passadinho” que custa apenas um real, na cantoria desafinada de clássicos brega com o professor Cléber Nelson, nas histórias da Garça do Tiba, na irreverência da professora Goréti, nos colegas de curso, de prédio ou apenas companheiros de escada,cigarro ou de copo, que sempre tem algo que nos faça rir e que nos acrescenta de alguma forma... A felicidade está ali, na grama com caspa da FAC, impregnada nas pareces que expiram melodia, está nos laboratórios que tantas vezes já te fizeram rir com a turma, ou chorar por não conseguir gravar aquele áudio... A felicidade está ali. Pode ser só para mim, talvez este seja o novo “estranho mundo de Ingra”, ou talvez seja para todos que se aproximam do mundo da comunicação, representado por aquelas pinturas, pela música que não cessa, pelas pessoas de todos os estilos...  Mas isso eu não tenho como te responder. Ficou curioso? Dá uma passada no D2, ouvi dizer que tem uma escada maravilhosa lá.

novembro 03, 2009

Arte de rua invadindo Passo Fundo

Não é de hoje que a pintura é um modo de expressão.Começou lá na Pré-História, quando os homens da época pintavam em rochas ou até mesmo no interior de suas cavernas,o que acontecia no seu dia a dia.Pintavam bisões, caçadas e cenas do seu cotidiano, suas tintas eram feitas com plantas, minerais e até gordura e sangue de animais e para fazer os traços, usavam como pincéis buchas vegetais e pêlos de animais.Hoje seus "rústicos pincéis" e suas tintas rupestres foram substituidos por latas de spray e por tintas acrílicas de cores brilhantes.As cavernas não existem mais para agregar seus desenhos, mas muros e paredes já sustentam elaborados e criativos graffitis.
O termo graffiti vem do italiano, graffito, que basicamente se refere à inscrições feitas em paredes, desde o Império Romano;e abrasileirado, simplismente grafite.
O grafite consiste em desenhos ou escrituras que são feitas em lugares não usados para esta finalidade,como paredes,calçadas,tábuas, etc. Mas não confunda grafite com pichação, pois o grafite além de já ser considerado parte do âmbito das artes visuais, tem toda uma preparação para fazer, e a pichação é simples ato de depredar o patrimônio alheio,sendo um ato totalmente vândalo.
Este tipo de arte, surgiu aproximadamente na década de 70, quando alguns grafiteiros deixavam mensagens poéticas e, ou políticas em prédios abandonados de Nova York.Em sua forma primária, podemos identificar o tag , que é simplesmente a assinatura do artista, como se fosse a sua marca e que são encontradas em praticamente todos os lugares de uma cidade que tenha pelo menos uma crew de grafiteiros.


Alguns termos usados no mundo do grafite:
ºWriter - Escritor de grafite.
ºTag - Nome/Pseudônimo do artista.
ºHall of Fame - Trabalho geralmente legal, mural mais trabalhado onde normalmente pinta mais do que um artista na mesma obra, explorando as técnicas mais evoluídas.
ºBombing - Grafite rápido, associado à ilegalidade, com letras mais simples e eficazes.
ºThrow-up - Estilo situado entre o "tag"/assinatura de rua e o bombing. Letras rápidas normalmente sem preenchimento de cor (apenas contorno).
ºRoof-top - Grafite aplicado em telhados, outdoors ou outras superfícies elevadas. Um estilo associado ao risco e ao difícil acesso mas que é uma das vertentes mais respeitáveis entre os writers.
ºWild Style - Estilo de letras quase ilegível. Um dos primeiros estilos a ser utilizado no surgimento do grafite.
º3D - Estilo tridimensional, baseado num trabalho de brilho / sombra das letras.
ºBubble Style - Estilo de letras arredondadas, mais simples e "primárias", mas que é ainda hoje um dos estilos mais presentes no grafite.
ºCharacters - Retratos, caricaturas, bonecos pintados a grafite.
ºTrain - Denominação de um comboio pintado.
ºWhole Train - Carruagem ou carruagens inteiramente pintadas, de uma ponta à outra e de cima a baixo.
ºEnd to end - Carruagem ou comboio pintado de uma extremidade à outra, sem atingir a parte superior do mesmo (por ex. as janelas e parte superior do comboio não são pintadas).
ºTop to bottom" - Carruagem ou carruagens pintadas de cima a baixo, sem chegar no entanto às extremidades horizontais.
ºBackjump - Comboio pintado em circulação, enquanto está parado durante o percurso (numa estação por exemplo).
ºCap - Cápsula aplicável ás latas para a pulverização do spray. Existem variados caps, que variam consoante a pressão, originando um traço mais suave ou mais grosso (ex: Skinny", "Fat", "NY Fat Cap", etc).
ºCrew - "Equipe", grupo de amigos que habitualmente pintam juntos e que representam todos o mesmo nome. É regra geral os writers assinarem o seu tag e respectiva crew (normalmente sigla com 3 ou 4 letras) em cada obra.
ºCross - Pintar um grafite por cima de um trabalho de um outro writer.
ºFill-in - Preenchimento (simples ou elaborado) do interior das letras de um grafite.
ºHighline - Contorno geral de toda o grafite, posterior ao outline.
ºOutline - Contorno das letras cuja cor é aplicada igualmente ao volume das mesmas, dando uma noção de tridimensionalidade.
ºInline - Contorno das letras, realizado na parte de dentro das letras.
ºDegradé - Passagem de uma cor para a outra sem um corte direto. Por exemplo uma graduação de diferentes tons da mesma cor.
ºKings - Writer que adquiriu respeito e admiração dentro da comunidade do grafite. Um estatuto que todos procuram e que está inevitavelmente ligado à qualidade, postura e anos de experiência.
ºToy - O oposto de King. Writer inexperiente, no começo ou que não consegue atingir um nível de qualidade e respeito dentro da comunidade.
ºBite - Cópia, influência direta de um estilo de outro writer.
ºSpot - Denominação dada ao lugar onde é feito um grafite.
ºAsdolfinho - Novo estilo de grafite desenvolvido por americanos, no qual é visado a pintura animal.
ºHollow - Grafite ou Bomb que nao tem fill (preenchimento) algum e, geralmente, é ilegal .



Aqui na na cidade, o movimento ainda é pequeno (comparado aos grandes centros), mas já há um pequeno grupo que tem seu nome feito: a Tagville(Tag=assinatura,Ville=da vila ),mais conhecida como a TGV crew. Há,praticamente em todo lugar, uma tag ou algum desenho deste grupo que (por enquanto) é formado apenas por alguns garotos, que decidiram se juntar pelo amor em comum por esta arte de rua.
Começaram a grafitar como uma crew,com apenas 3 amigos, contando agora com mais 6 integrantes.
Eles se juntam sempre que encontram algum muro ou parede disponivel,seguem até lá com suas mochilas repletas de sprays, rolinhos,pincéis e tintas começando o trabalho.Trabalho sim, pois eles levam o grafite muito a sério.Encontrei-me com Gueto e Iugue,dois dos "fundadores" da TGV, para fazer algumas perguntinhas.


Como começou toda essa paixão pelo desenho?

(Iugue)-Eu comecei no desenho me espelhando no meu primo e meus tios que sempre desenharam, minha ambição era ser melhor que eles (risos).
(Gueto)-Comecei desenhando em casa mesmo.Meu tio desenhava bastante e como eu tinha pais separados, passava a maior parte do tempo com ele, então acabei me apaixonando por desenhos.Desde aquela época eu nunca parei de desenhar e agradeço a ele por ter me ensinado o que sei, mas infelizmente ele veio a falecer antes mesmo de ver um graffiti meu,porém tenho certeza que de algum lugar ele está olhando e muito orgulhoso de ter sido ele que me deu o "pontapé inicial".

E como se deu a transição do papel para a parede?

(Iugue)-Meu grafite começou de um jeito meio estranho, pois eu pichava e gostava de desenhar,então quies juntar tudo isso de um modo que me agradasse.
(Gueto)-Na verdade eu sempre tinha vontade de desenhar nas paredes, mas faltava coragem ,eu tinha medo de estragar,sabe?!Fui crescendo e o medo foi passando, até que um dia um amigo pediu para que eu fizesse um grafite na parede do querto dele.Fui sem medo e deu tudo certo.Depois disso não parei mais, tô nisso até hoje. (risos)

O grafitti ainda sofre muito preconceito, principalmente na nossa cidade, aonde as pessoas não estão acostumadas com tal modo de expressão.Já aconteceu alguma situação que os deixou constrangidos?

Já ouvimos de tudo.Críticas, chingamentos, ameaças...Mas a maioria são elogios,muito apoio e incentivo de quem passa no local na hora e é isso que nos dá mais vontade de continuar.

O graffiti é muito diferente da pichação.Dê uma explicação rápida sobre a diferença.

Os dois são modos de expressão,porém o graffiti utiliza desenhos e mais cores.É arte mesmo, já a pichação é algo mais rebelde ,usado como forma de expressão de gangues ou para fazer críticas sociais, mas ambas tem as mesmas raízes, que são a rua.

Mas então a Tag não deixa de ser uma forma, mesmo que disfarçada, de pichação?Não pode ser considerada vandalismo?

A Tag é usada como assinatura do grafiteiro,para registrar o autor de determinada arte.Pode também ser usada apenas para constar a existência do grafiteiro ou que ele passou por algum local de difícil acesso, enfim,mas isso não deixa de ser um vandalismo.

Vocês não acham que chegar em um lugar com suas canetas e tinatas, e desenhar sem a autorização do dono seja vandalismo?

De certa forma sim,mas um vandalismo do bem,onde muitas pessoas entendem e enchergam como arte (que é o seu propósito), mas é claro que quando são em residências pedimos autorização dos donos.

A TGV é uma das primeiras crew's criadas em Passo Fundo(senão a primeira).Em que ano vocês decidiram que tinham de ter um grupo,uma identidade em comum?Como se deu este pensamento?

Em Passo Fundo só existia uma crew,que não se destacava muito na rua, e foi vendo isso que resolvemos ser a primeira crew originalmente das ruas.Na idéia tem 4 anos, mas na prática são quase 3 anos.

Quantos integrantes tem a crew?Quais as "qualidades" necessárias para que alguém se junte à TGV?Seria apenas um grupo de amigos ou um grupo que reúne talentos aqui do interior do estado?

Iniciamos como um pequeno grupo de amigos,logo mais foram se juntando alguns conhecidos que aderiram à arte.A Tagville é uma família que não pára de crescer.Dentro dela já estão surgindo outras "SubCrew's" , mas todas vindo da mesma raiz, a TGV.E para se juntar à nossa crew, basta ter amor pela arte de rua e suas vertentes e correr atrás disso.

Mas vocês fazem isso por distração ou esperam um futuro disso?

Com certeza todo mundo espera um futuro fazendo aquilo que gosta,mas nem sempre dá certo.Nós ainda estamos lutando para ser reconhecidos, mas se não der certo, vai ficar para sempre como uma distração e uma paixão que só quem faz sabe como é.

Já dá para perceber que a qualidade dos desenhos, assim como os lugares em que são feitos estão melhorando,porque vocês acham que isso vem acontecendo?

Pelo esforço de cada um.Como aqui não existe nenhuma outra crew para nos espelharmos,cada integrante corre atrás do seu próprio estilo e tenta evoluir da melhor forma possível, sempre trocando idéias com os outros integrantes da crew.

Tem uma galerinha nova que curte o graffiti e que anda se espelhando em vocês.Mandem um recado pra quem está pensando em fazer isso.

Desenhe,desenhe,desenhe no papel até cansar.Quando achar que já está preparado,vá para a parede e desenhe,desenhe e desenhe(risos).Por mais que pareça impossível, não desista nunca.


Contato e mais fotos: Orkut da TGV crew


Por Ingra Costa e Silva